• Quando a equidistância se torna desonestidade

    As reacções às eleições presidenciais deste fim de semana trouxeram de volta um velho vício da política portuguesa: a falsa simetria. Ao comentar os resultados, Miguel Morgado afirmou que António José Seguro e André Ventura “estão bem um para o outro”, ao mesmo tempo que validou a opção de Luís Montenegro de não tomar posição.

    À primeira vista, trata-se apenas de um comentário político. Mas, na realidade, estamos perante algo mais profundo: uma escolha moral travestida de neutralidade. Porque não estamos a falar de dois projectos equivalentes, nem de dois riscos simétricos para a democracia.


    2015 como ferida aberta

    Parte da direita portuguesa — e Miguel Morgado é um dos seus intérpretes mais lúcidos — nunca fez verdadeiramente as pazes com 2015. A Geringonça não foi apenas uma alternância governativa; foi lida como uma espécie de erro histórico, quase moral, do país. A partir daí, instalou-se uma narrativa persistente: o PS passou a ser tratado como “socialista”, o centro como decadente, e qualquer compromisso como sinal de fraqueza.

    O problema é que esta leitura, quando se cristaliza, deixa de ser análise e transforma-se em ressentimento político. E o ressentimento tem um efeito corrosivo: aplana diferenças que importam.


    A falsa equivalência

    Colocar António José Seguro e André Ventura no mesmo plano não é prudência nem ironia esclarecida. É falseamento político.

    Seguro representa o centro democrático português: discutível, criticável, limitado — mas plenamente inserido no quadro constitucional e institucional. Ventura representa um projecto radical de direita, cuja estratégia assenta na erosão da confiança nas instituições, na deslegitimação sistemática do sistema político e na normalização do conflito permanente.

    Isto não é uma questão de gosto político. É uma distinção estrutural. Tratar ambos como “dois extremos” é abdicar do critério mais elementar da democracia liberal: a diferença entre adversário e ameaça.


    A equidistância como táctica

    A opção de Montenegro por não tomar posição pode ser compreendida em termos tácticos. Evita ruído, preserva margens de manobra, impede fracturas imediatas. A curto prazo, é confortável.

    Mas a médio e longo prazo, a equidistância entre democracia liberal e política iliberal é perigosa. Porque normaliza o radicalismo e desvaloriza o centro. Porque sugere que tudo é equivalente. Porque transforma a política num jogo de espelhos onde deixam de existir fronteiras morais claras.

    Quando essa equidistância é legitimada por intelectuais do campo democrático, o problema agrava-se. Não estamos a falar de ignorância. Estamos a falar de escolha consciente.


    O contraponto que importa sublinhar

    Seria injusto — e intelectualmente desonesto — tratar a direita portuguesa como um bloco homogéneo. Dentro do PSD e do espaço liberal-conservador há quem tenha assumido uma responsabilidade democrática clara, apoiando Seguro não por afinidade ideológica, mas por critério institucional.

    Essas posições mostram algo essencial: a falsa simetria não é inevitável. Há quem perceba que, em determinados momentos, a democracia exige escolhas incómodas. E que não tomar posição é, em si, uma posição.

    É precisamente por existirem essas vozes que a leitura de Morgado se torna mais problemática. Porque revela que não estamos perante um dilema insolúvel, mas perante uma opção discursiva.


    Quando o rigor cede à demagogia

    Miguel Morgado sabe — na senda de Pedro Passos Coelho — que o PS não é socialista no sentido doutrinário, e que o centro democrático não é equiparável ao radicalismo iliberal. Quando insiste nessas equivalências, não está a esclarecer o debate: está a colonizá-lo simbolicamente.

    O efeito é conhecido: empurra o centro para a periferia moral e torna o extremismo mais aceitável. Não por virtude própria, mas por comparação adulterada.

    A democracia não se defende colocando tudo no mesmo saco. Defende-se nomeando diferenças, assumindo critérios e pagando custos. Quando o centro democrático é tratado como extremo, o extremismo deixa de parecer perigoso. E quando isso acontece, a política deixa de ser escolha — passa a ser corrosão.


    Uma deriva que contraria a própria génese do PSD

    Há ainda um equívoco recorrente na forma como se fala do PSD: a ideia de que sempre foi apenas um partido onde “couberam várias direitas”. Isso é, no mínimo, incompleto. O PSD nasce como um partido de centro-esquerda, assumidamente social-democrata, e não como uma força conservadora disfarçada.

    Francisco Sá Carneiro e outros fundadores do então PPD eram social-democratas convictos, marcados pela tradição europeia que conciliava economia de mercado com forte responsabilidade social, direitos laborais e um Estado activo. Essa social-democracia não era retórica: era identidade política.

    Foi essa matriz que permitiu ao partido ocupar um lugar central na democracia portuguesa, funcionar como pilar do regime e garantir alternância sem ruptura. Mesmo quando o PSD se deslocou à direita em determinados ciclos, manteve quase sempre um lastro social-democrata que o distinguia tanto da direita conservadora clássica como de projectos mais radicais.

    É por isso que a estratégia actual de equidistância entre centro democrático e radicalismo iliberal não representa apenas um cálculo táctico — representa uma ruptura com a própria história do partido. Ao abdicar de nomear claramente o que é democrático e o que é corrosivo, o PSD afasta-se da sua génese e do papel que desempenhou durante décadas como força de estabilização democrática.

    O paradoxo é claro: ao tentar proteger o seu espaço à direita, o PSD arrisca perder aquilo que o tornou relevante — a sua identidade fundadora enquanto partido democrático, europeu e reformista.

  • António José Seguro e a vitória do centro democrático

    A leitura apressada da segunda volta das presidenciais tenta reduzir o confronto a um eixo simples: esquerda contra direita. É uma grelha confortável, mediaticamente eficaz e politicamente útil para quem vive da polarização. Mas é também profundamente enganadora.

    A eventual vitória de António José Seguro não representaria uma vitória da esquerda. Representaria, isso sim, uma vitória do centro democrático, num contexto de crescente tensão institucional e normalização do discurso populista.

    Um perfil mais institucional do que ideológico

    Seguro nunca se apresentou como um líder de mobilização ou como o porta-estandarte de uma agenda ideológica forte. O seu percurso político — marcado pela moderação, pela contenção discursiva e por uma certa aversão ao conflito — aponta noutra direcção: a de alguém que vê a política sobretudo como gestão institucional do equilíbrio democrático.

    Não é um tribuno, não é um reformador radical, nem alguém que procure usar a Presidência como instrumento de combate partidário. Pelo contrário, o seu perfil aproxima-se de uma concepção republicana clássica do cargo: um Presidente regulador, não interventivo; árbitro, não jogador.

    É precisamente isso que o torna aceitável — e até desejável — para sectores que não se revêem na esquerda, mas que também não se reconhecem na deriva populista.

    Porque esta não é uma eleição esquerda vs direita

    A tentativa de André Ventura de enquadrar a segunda volta como um embate ideológico clássico serve um propósito claro: mobilizar o voto identitário e forçar uma escolha emocional. Mas o verdadeiro confronto não é entre campos ideológicos tradicionais.

    O que está em causa é outra coisa:

    centro democrático versus populismo autoritário.

    Seguro não ameaça a alternância, não questiona as regras do jogo democrático, não pretende transformar Belém numa plataforma de combate político permanente. A sua candidatura agrega votos de esquerda, centro e direita moderada, não por entusiasmo ideológico, mas por rejeição de um risco sistémico.

    É por isso que a sua eventual vitória não reforça um campo político específico. Não desloca o centro de gravidade do sistema. Não legitima uma agenda transformadora. Funciona, antes, como uma resposta defensiva de um sistema democrático sob pressão.

    Um paradoxo: Seguro pode ser benéfico para o PSD

    Há aqui uma ironia política difícil de ignorar. Para o Partido Social Democrata, a eleição de Seguro pode ser menos um problema do que uma solução.

    Desde logo, porque introduz um factor de estabilização institucional. Num contexto de governo minoritário e Parlamento fragmentado, um Presidente previsível e cooperante reduz o ruído político e alarga a margem de governação.

    Depois, porque neutraliza o principal risco estratégico do PSD: a erosão pela direita. Um Presidente populista daria palco, legitimidade e centralidade institucional ao Chega. Um Presidente moderado retira-lhe esse espaço e dificulta a narrativa do “único contra o sistema”.

    Por fim, porque reintroduz limites. Mesmo que o PSD se tenha afastado do centro no discurso e em algumas opções políticas, a presença de Seguro em Belém funciona como travão institucional a derivas que o próprio partido não controla totalmente.

    Uma vitória que diz mais sobre o sistema do que sobre o vencedor

    A eventual eleição de António José Seguro não seria uma afirmação ideológica. Seria um sinal de autopreservação do sistema democrático português. Um reflexo de uma sociedade que, confrontada com a radicalização, opta pela contenção; confrontada com o ruído, escolhe a previsibilidade.

    Não é uma vitória entusiasmante. Não é transformadora. Mas talvez seja, no momento actual, uma vitória necessária.

    Porque nem todas as vitórias políticas são avanços. Algumas são, simplesmente, formas de evitar o recuo.

  • Entre o choque e a coesão: os limites do liberalismo económico

    O liberalismo económico é frequentemente discutido como se fosse uma posição moral: ou se é a favor ou contra. Essa abordagem empobrece o debate. O liberalismo não é, em si mesmo, uma virtude nem um vício — é um instrumento político e económico. E como qualquer instrumento, pode ser eficaz em determinados contextos e profundamente problemático noutros.

    A questão central não é se o liberalismo “funciona”. A questão é quando, durante quanto tempo e com que correções.

    O liberalismo como resposta ao choque

    Em contextos de crise profunda — colapso macroeconómico, défices descontrolados, inflação persistente, Estados bloqueados por rigidez administrativa — medidas de inspiração liberal têm frequentemente um efeito rápido.

    A liberalização de mercados, a disciplina orçamental, a simplificação regulatória ou a abertura ao investimento externo podem:

    • restaurar confiança,
    • desbloquear atividade económica,
    • corrigir distorções acumuladas,
    • travar dinâmicas de colapso.

    Nestes contextos, o liberalismo funciona como terapia de choque. Não porque seja socialmente neutro, mas porque é rápido. Serve para estancar a crise quando outras opções já não produzem resultados.

    Ignorar isto seria desonesto. Há momentos em que o problema principal não é a distribuição da riqueza, mas a ausência dela.

    O erro recorrente: transformar exceção em regra

    O problema começa quando aquilo que foi pensado como resposta conjuntural se transforma em modelo estrutural.

    O liberalismo económico tende a ser menos perigoso pelo que faz no início e mais problemático pelo que recusa fazer depois. Quando medidas de emergência passam a ideologia permanente, surgem efeitos cumulativos difíceis de corrigir:

    • enfraquecimento progressivo do Estado,
    • desinvestimento em serviços públicos,
    • aumento das desigualdades,
    • fragilização da classe média,
    • concentração territorial e social da riqueza.

    O mercado é eficaz a gerar crescimento, mas não tem mecanismos próprios de coesão. Não organiza o território, não garante acesso universal, não protege quem fica estruturalmente para trás. Quando o Estado abdica desse papel em nome da eficiência, a sociedade começa a fragmentar-se.

    Crescimento sem coesão: a lição irlandesa

    A Irlanda é um exemplo particularmente esclarecedor. O país resolveu problemas reais: modernizou a economia, atraiu investimento, criou emprego, cresceu de forma sustentada. O sucesso económico é inegável.

    Mas esse crescimento não foi acompanhado por uma política pública à altura, sobretudo no domínio da habitação e dos serviços sociais. O resultado é hoje visível e mensurável: aumento significativo de pessoas sem teto, exclusão habitacional da classe média, pressão crescente sobre serviços públicos e sinais claros de erosão da coesão social.

    Durante algum tempo, estes sinais foram tratados como perceção ou exagero. Os dados vieram confirmar que não o eram. O crescimento económico não evitou — e em alguns casos agravou — a fratura social.

    A Irlanda não falhou por crescer. Falhou por não ter corrigido a tempo os efeitos desse crescimento.

    Liberalismo e tempo: a variável esquecida

    Grande parte do debate ignora uma variável essencial: o tempo.

    O liberalismo pode ser:

    • eficaz no curto prazo,
    • ambíguo no médio,
    • desestruturante no longo prazo.

    Países não podem viver permanentemente em modo de emergência. Quando políticas pensadas para corrigir crises passam a definir o normal, cria-se uma economia funcional mas uma sociedade instável. É nesse vazio que surgem ressentimento, polarização e desconfiança democrática.

    O problema não é o choque inicial. É a ausência de uma fase seguinte: reconstrução do Estado, investimento em serviços públicos, políticas de redistribuição inteligentes e reforço da coesão social.

    O que isto significa para países como Portugal

    Para países como Portugal, a lição é clara. O liberalismo pode ser útil em momentos específicos — recuperação macroeconómica, desbloqueio de rigidezes, resposta a choques externos. Mas não substitui um projeto de sociedade.

    Sem:

    • um sistema de saúde robusto,
    • uma escola pública forte,
    • uma política de habitação ativa,
    • um Estado capaz de planear e regular,

    o crescimento torna-se frágil e socialmente corrosivo.

    Equilibrar contas é necessário. Sustentar uma sociedade é mais exigente.

    Instrumento, não dogma

    O liberalismo económico não deve ser tratado como heresia nem como salvação. Deve ser tratado como aquilo que é: um instrumento.

    Usado no contexto certo, durante o tempo certo, pode ser decisivo para recuperar países em crise. Transformado em modelo permanente, tende a gerar desequilíbrios que corroem a coesão social e, a prazo, o próprio consenso democrático.

    A questão não é ser a favor ou contra o liberalismo.
    A questão é saber quando o usar, quando o limitar e quando o corrigir.

    Entre o choque e a coesão, há uma escolha política.
    E essa escolha não pode ser eternamente adiada.

    Do diagnóstico à resposta: governar o equilíbrio

    Reconhecer os limites do liberalismo económico não implica rejeitá-lo. Implica, isso sim, recusar a ideia de que possa funcionar como modelo permanente sem correções. A resposta ao diagnóstico não está numa rutura ideológica, mas na capacidade política de ajustar continuamente o equilíbrio entre mercado e coesão social.

    A social-democracia nasce precisamente dessa negociação. Assume que tanto o liberalismo como o marxismo contêm verdades inestimáveis: o primeiro identifica corretamente o valor da liberdade individual, da iniciativa e do dinamismo económico; o segundo expõe com clareza as desigualdades estruturais e as assimetrias de poder geradas pelo mercado. A solução não está na negação de um em favor do outro, mas num equilíbrio permanente entre ambos — não um equilíbrio estático, mas um processo contínuo de ajustamento.

    Esse ajustamento exige escolhas concretas.

    Desde logo, um Estado social forte, não residual. Saúde, educação e proteção social não podem ser tratadas como variáveis de correção orçamental, sobretudo em economias que crescem. Pelo contrário, são o principal mecanismo de estabilização social e democrática em contextos de mudança económica acelerada.

    Em segundo lugar, uma política de habitação assumida como central. O mercado, por si só, não responde à pressão combinada de investimento global, crescimento urbano e mobilidade laboral. Onde o Estado abdica de intervir, a exclusão instala-se rapidamente, corroendo a coesão social mesmo em países economicamente bem-sucedidos.

    A isto junta-se a necessidade de redistribuição inteligente: fiscalidade progressiva, combate à concentração excessiva e investimento público visível. Não para nivelar resultados, mas para preservar mobilidade social, confiança coletiva e legitimidade democrática.

    Também o trabalho exige correções permanentes. Mercados dinâmicos não são incompatíveis com proteção social, mas a flexibilidade só é sustentável se não se transformar em precariedade estrutural. A defesa da classe média não é conservadorismo económico; é condição de estabilidade política.

    Por fim, tudo isto pressupõe um Estado capaz. Nem mínimo nem hipertrofiado, mas competente, estratégico e avaliável. Um Estado fraco acaba capturado pelo mercado; um Estado rígido paralisa a sociedade. A social-democracia vive nessa tensão difícil — e é aí que se distingue.

    Entre o choque e a coesão, a escolha não é ideológica, é política. Governar esse equilíbrio instável exige aceitar que não há fórmulas definitivas, apenas correções sucessivas. Quando esse trabalho é abandonado, o liberalismo transforma-se em dogma e a proteção em bloqueio. Quando é assumido, o crescimento deixa de ser um fim em si mesmo e passa a servir a sociedade.

    Essa é, no essencial, a resposta ao diagnóstico.
    Não a negação do liberalismo.
    Mas a recusa de o deixar governar sozinho.

  • O verdadeiro voto de protesto

    Muito se tem dito que André Ventura representa o “anti-sistema”. A ideia tornou-se quase um reflexo automático no comentário político: quem grita contra o regime, quem hostiliza instituições, quem se apresenta como outsider, só pode estar fora do sistema. Mas esta leitura é superficial — e perigosamente errada.

    Ventura não é anti-sistema.
    É, pelo contrário, do mais sistema que há.

    O seu percurso, a sua forma de comunicar e o seu modo de fazer política assentam integralmente nos mecanismos do próprio sistema que diz combater. Conhece-o bem, domina-o e utiliza-o como palco. Não pretende desmontá-lo, apenas ocupá-lo. A sua retórica apresenta-se como ruptura, mas o conteúdo é antigo: ideias velhas, autoritárias e punitivas, recicladas com linguagem de choque e embaladas como novidade.

    O populismo vive desta ilusão: fazer passar repetição por ruptura, ressentimento por coragem, e barulho por mudança.

    Neste sentido, Ventura não ameaça o sistema — é-lhe funcional. Canaliza frustração, simplifica conflitos, transforma política em espectáculo moral. O sistema sabe lidar com isso. Sempre soube.


    A sátira como verdadeiro gesto anti-sistema

    É aqui que a candidatura de Manuel João Vieira — o chamado Candidato Vieira — ganha uma importância que muitos insistem em desvalorizar.

    Vieira não disputa o poder.
    Não promete governar melhor.
    Não se apresenta como salvador.

    E é precisamente por isso que a sua candidatura é, paradoxalmente, a mais anti-sistema de todas.

    Através da sátira, Vieira faz aquilo que o discurso político sério evita: expõe os mecanismos, revela o vazio, exagera a linguagem até ao ponto em que ela se denuncia a si própria. As promessas absurdas — Ferraris para todos, vinho a sair das torneiras — não são um delírio infantil. São um espelho. Um exagero que devolve ao eleitor a pergunta essencial: em que momento aceitámos isto como normal?

    Enquanto o populismo pede fé, a sátira exige pensamento.


    Protestar para mandar vs. protestar para mostrar

    Aqui reside a diferença decisiva.

    Ventura protesta para mandar.
    Vieira protesta para mostrar.

    Um quer substituir elites por outras, mantendo intacta a lógica de poder.
    O outro não quer substituir ninguém — quer desnudar a encenação.

    Por isso, quando se fala em “voto de protesto”, convém ser rigoroso. A abstenção é fuga. O populismo é captura. O cinismo é desistência. Mas o voto satírico, consciente, é outra coisa: é denúncia simbólica, é recusa em participar na mentira performativa que passou a ocupar o espaço político.

    Num cargo como a Presidência da República — forte no símbolo, limitado na acção — esta recusa ganha ainda mais sentido. Se o presidente não governa, talvez seja legítimo perguntar se o que nos resta é apenas o ritual.


    O sistema não teme quem o ocupa

    O sistema teme quem o revela.

    Talvez seja por isso que a candidatura de Vieira incomoda tanto alguns comentadores: porque não cabe nas categorias habituais. Não é irresponsável, nem ingénua. É desestabilizadora, no sentido mais raro e mais necessário do termo.

    Não promete soluções.
    Promove lucidez.

    E num tempo em que a política se alimenta da ilusão e do medo, a lucidez é um acto profundamente subversivo.

    Não é um palhaço a brincar à política —
    é a política que já se tornou palhaçada,
    e alguém decidiu ligar o espelho.

  • Stephen Miller: o ideólogo que transformou o trumpismo num método

    Durante anos, o debate público sobre os Estados Unidos concentrou-se quase exclusivamente em Donald Trump. A sua figura dominou o espaço mediático, absorveu atenções e tornou-se sinónimo de tudo o que parecia ameaçar a democracia liberal americana. Esse foco, porém, teve um efeito colateral: obscureceu quem, longe dos holofotes, transformou o impulso caótico do trumpismo num projeto político estruturado.

    Hoje, no segundo mandato de Trump, essa distinção tornou-se impossível de ignorar. As políticas são mais rápidas, mais duras e menos improvisadas. As resistências institucionais são menores. A exceção tornou-se rotina. E, no centro desse processo, surge uma figura que raramente procura protagonismo, mas cuja influência atravessa a imigração, a política interna, a política externa e o próprio funcionamento do Estado.

    Este texto não é sobre Donald Trump.
    É sobre Stephen Miller — e sobre o método que ajudou a normalizar.

    Não é Trump — é pior do que isso

    Durante quase uma década, a política americana habituou-se a olhar para Donald Trump como o centro de gravidade de tudo o que correu mal: o ruído constante, a imprevisibilidade, a quebra de normas, o desprezo pela linguagem institucional. Essa leitura, embora compreensível, tornou-se confortável. Personalizou o problema. Deu-lhe um rosto excessivamente visível.

    Stephen Miller é o contrário disso.

    Se Trump é instinto e espetáculo, Miller é método e persistência. Onde Trump improvisa, Miller sistematiza. Onde Trump reage, Miller prepara. E é precisamente por isso que a sua ascensão representa algo mais profundo do que a simples radicalização de um líder populista: representa a transformação do trumpismo numa doutrina operacional.

    Miller não depende do caos. Pelo contrário, aprende com ele. Retira-lhe as lições, elimina os obstáculos, corrige os erros de execução e constrói algo mais durável. Um poder menos ruidoso, mas mais eficaz. Menos personalista, mas mais institucionalizado.

    Durante o primeiro mandato de Trump, Miller foi frequentemente visto como um assessor extremista entre muitos outros. Hoje, é um dos poucos sobreviventes — e o mais influente. Não porque se tenha moderado, mas porque compreendeu melhor do que ninguém como funciona o poder num sistema que ainda se apresenta como democrático, mas já opera à base da exceção.

    Reduzir Stephen Miller a “o homem da imigração” é cometer o mesmo erro que, durante anos, levou muitos a subestimar o trumpismo: confundir o tema com o método. A imigração é apenas o campo onde Miller começou. O que ele construiu desde então é um modelo de governação.

    Um modelo que não precisa de tanques nem de golpes clássicos. Basta-lhe tempo, lealdade e a normalização progressiva do inaceitável.

    Uma ideologia antiga à espera de poder

    A tentação de explicar Stephen Miller como produto de Trump falha logo no ponto de partida. A sua visão do mundo estava formada muito antes de 2016 — e, mais importante, manteve-se extraordinariamente estável ao longo do tempo.

    Crescido em Santa Monica, num dos bastiões liberais da Califórnia, Miller construiu desde cedo uma identidade política por oposição. No liceu, fez-se notar como provocador conservador num ambiente maioritariamente progressista, atacando políticas multiculturais, denunciando o que chamava de complacência institucional e cultivando uma narrativa de decadência moral e social. Não era apenas rebeldia juvenil: era já uma leitura totalizante da sociedade.

    Na universidade, essa leitura ganhou densidade ideológica. Em Duke, Miller aproximou-se de círculos conservadores que viam a imigração não como um fenómeno económico ou humanitário, mas como um mecanismo de transformação política irreversível. A ideia era simples e obsessiva: sociedades que recebem imigração em larga escala deslocam-se inevitavelmente para a esquerda. A democracia, nesse quadro, deixa de ser um espaço de alternância e passa a funcionar como um sistema de “catraca”, sempre a rodar no mesmo sentido.

    É aqui que se forma o núcleo do pensamento de Miller: a democracia liberal só é aceitável enquanto produz os resultados “certos”. Quando deixa de o fazer, deve ser corrigida — não abolida, mas reprogramada.

    O encontro com Jeff Sessions, no Senado, deu-lhe finalmente um instrumento político. Como assessor, Miller começou a transformar convicções em linguagem administrativa: estatísticas selecionadas, narrativas de criminalidade, enquadramentos legais agressivos. O que muitos em Washington viam como exagero ou histeria ideológica era, na verdade, um ensaio geral. Miller estava a aprender a falar a língua do Estado.

    Quando Trump surge, não cria Miller. Reconhece-o. Encontra nele algo raro no seu ecossistema político: alguém capaz de dar forma coerente aos seus impulsos. Miller não precisava de ajustar a sua visão do mundo — precisava apenas de escala.

    Por isso, quando se fala hoje da radicalização do poder nos Estados Unidos, convém inverter a pergunta habitual. Não é até onde Trump foi levado por figuras como Miller. É até onde figuras como Miller conseguiram ir porque, finalmente, encontraram um presidente disposto a não lhes impor limites.

    Imigração como eixo absoluto

    Para Stephen Miller, a imigração nunca foi apenas uma política pública entre outras. É o ponto de articulação de toda a sua visão do mundo. Economia, cultura, segurança, identidade nacional e até legitimidade democrática convergem aqui. Tudo o resto é secundário.

    Ao contrário de muitos políticos que usam a imigração como bandeira eleitoral, Miller trata-a como um problema existencial. Não distingue de forma substantiva imigração legal e ilegal: ambas são vistas como mecanismos de transformação demográfica e, por consequência, política. A fronteira, neste enquadramento, não é apenas uma linha territorial — é uma linha civilizacional.

    Durante o primeiro mandato de Trump, Miller foi o principal arquiteto das políticas mais duras e controversas: a separação de crianças migrantes das famílias, a redução drástica do acesso ao asilo, o endurecimento dos critérios de imigração legal e a tentativa de banimento de cidadãos oriundos de países maioritariamente muçulmanos. Estas medidas foram muitas vezes apresentadas como respostas improvisadas a crises pontuais. Não eram. Faziam parte de um desenho coerente, ainda que juridicamente frágil.

    A resistência que encontrou — nos tribunais, na burocracia federal e até dentro da própria administração — ensinou-lhe uma lição fundamental: não bastava ter razão ideológica; era preciso controlar os instrumentos do Estado. Essa aprendizagem explica a diferença entre o Miller do primeiro mandato e o do segundo.

    No regresso ao poder, a abordagem tornou-se mais agressiva e mais sofisticada. O recurso a leis arcaicas, como o Alien Enemies Act de 1798, para justificar deportações sem garantias processuais, revela uma lógica clara: quando o direito contemporâneo impõe limites, procura-se no passado legal aquilo que permita contorná-los. A legalidade não é um quadro normativo a respeitar, mas um arsenal a explorar.

    Mais revelador ainda é o tom com que Miller fala da aplicação destas políticas. Não há ambiguidade, nem linguagem tecnocrática. Há entusiasmo. A imigração surge como o campo onde o Estado finalmente se liberta de constrangimentos morais e procedimentais e passa a agir com a dureza que, na sua visão, sempre lhe faltou.

    Neste ponto, Miller afasta-se até de Trump. Onde o presidente oscila entre impulsos contraditórios — endurecer, recuar, negociar — Miller insiste. Pressiona. Reverte recuos. A imigração é o terreno onde o seu poder se torna mais visível e onde a sua ideologia se impõe com maior clareza.

    Não é por acaso que tudo começa aqui. Para Miller, controlar quem entra é a condição prévia para controlar o que o país se torna. A partir daí, o resto segue quase naturalmente.

    Quando o Estado testa os seus próprios limites

    Há momentos em que o poder se revela não pelo que proclama, mas pelo que autoriza. O episódio envolvendo uma ativista que protestou junto à residência de Stephen Miller, nos subúrbios de Washington, é um desses momentos — não pela sua excecionalidade, mas pela sua banalidade administrativa.

    Uma ação de protesto local, envolvendo panfletos, palavras duras e gestos simbólicos, desencadeou uma resposta estatal que incluiu polícia local, polícia estadual, FBI e Secret Service. Um telemóvel foi apreendido. Seguiu-se uma disputa judicial complexa sobre liberdade de expressão, intimidação e segurança pessoal. Formalmente, tudo parecia enquadrado na legalidade. Substancialmente, algo mais profundo estava a acontecer.

    O caso não é relevante porque Stephen Miller tenha sido alvo de críticas — figuras públicas são-no todos os dias. É relevante porque mostra como o Estado reage quando o alvo é alguém como Miller. A máquina securitária move-se com uma rapidez e uma escala desproporcionadas, testando até onde pode ir sem provocar resistência institucional significativa.

    Nada disto exige ordens explícitas. Não há memorandos assinados, nem instruções diretas. Basta o enquadramento discursivo: protestos passam a ser lidos como ameaças; ativismo como potencial terrorismo; crítica política como risco à segurança nacional. A linguagem faz o trabalho antes da lei.

    É aqui que se percebe a verdadeira eficácia de Miller. Ele não precisa de suspender direitos — basta tornar ambígua a fronteira entre o legítimo e o suspeito. Quando essa fronteira se esbate, o efeito disciplinador instala-se. Outros ativistas observam. Jornalistas tomam nota. Instituições locais aprendem a antecipar o que é esperado delas.

    Este é um ponto crucial para compreender o autoritarismo contemporâneo. Não se trata de repressão massiva, mas de exemplos cirúrgicos. Casos suficientemente visíveis para enviar um sinal, suficientemente complexos para evitar uma reação imediata. O custo de protestar sobe. O risco jurídico aumenta. A autocensura faz o resto.

    O mais significativo é que este episódio encaixa perfeitamente na visão de mundo de Miller. Um mundo permanentemente ameaçado, onde a dissidência não é um elemento constitutivo da democracia, mas uma vulnerabilidade a explorar. A segurança deixa de ser uma função do Estado e passa a ser o seu argumento supremo.

    Quando o Estado começa a testar os seus próprios limites em nome da proteção de figuras do poder, não está apenas a reagir a um contexto de polarização. Está a ensaiar um novo normal. Um normal onde a exceção deixa de ser exceção — e onde figuras como Stephen Miller não apenas beneficiam desse processo, mas o aceleram.

    O mundo governado pela força

    A entrada de Stephen Miller no centro da política externa americana não representa uma rutura com o seu percurso anterior. Representa a sua extensão lógica. A mesma visão que molda a imigração e a repressão interna passa agora a organizar a forma como os Estados Unidos se posicionam no mundo.

    Quando Miller afirma, sem rodeios, que o mundo é governado pela força, não está a recorrer a uma hipérbole televisiva. Está a enunciar uma ontologia política. Para ele, normas internacionais, alianças multilaterais e compromissos diplomáticos não são pilares de estabilidade, mas ilusões confortáveis que escondem a verdadeira natureza das relações internacionais: hierarquia, coerção e dominação.

    Nesta leitura, a política externa deixa de ser um espaço de mediação entre interesses divergentes e passa a ser um instrumento de imposição. Países aliados são avaliados em termos de utilidade imediata. Instituições como a NATO ou a ONU surgem como constrangimentos, não como ativos estratégicos. O direito internacional transforma-se num obstáculo a contornar, não numa referência a respeitar.

    Os episódios envolvendo a Gronelândia e a Venezuela são particularmente reveladores. A ideia de anexar ou controlar territórios de aliados, ou de intervir militarmente para garantir acesso a recursos naturais, é apresentada não como exceção extrema, mas como opção legítima. A linguagem é deliberadamente crua. Não há esforço para disfarçar ambições com retórica humanitária ou democrática. A força é assumida como princípio organizador.

    Importa sublinhar que isto não corresponde a um isolacionismo clássico. Miller não defende o recuo americano do mundo, mas a sua reconfiguração imperial. Os Estados Unidos não devem retirar-se — devem impor-se. A seletividade substitui o compromisso: envolvimento quando há ganhos claros, abandono quando os custos superam os benefícios.

    Esta visão externa reforça, por espelhamento, a lógica interna. Um Estado que se vê como permanentemente ameaçado no exterior tende a justificar a compressão de direitos no interior. Um mundo descrito como hostil legitima um poder executivo fortalecido, pouco paciente com dissenso e avesso a limitações legais.

    Ao projetar para fora a sua visão de conflito permanente, Miller fecha o círculo ideológico. A política externa deixa de ser um domínio separado e passa a funcionar como continuação da guerra cultural por outros meios. O inimigo muda de nome e de geografia, mas a lógica permanece intacta.

    Neste quadro, o mais inquietante não é a brutalidade da linguagem, mas a sua coerência. Stephen Miller não improvisa uma política externa agressiva. Ele aplica ao mundo a mesma grelha mental que já aplicou às fronteiras, às instituições e à própria sociedade americana.

    O método: inundar, contornar, sobreviver

    Se a ideologia explica o que Stephen Miller quer, o método explica como consegue avançar apesar das resistências. E é aqui que o seu papel se torna verdadeiramente decisivo. Miller não é apenas um ideólogo convicto — é um operador burocrático altamente eficaz, que aprendeu a usar o próprio sistema contra si mesmo.

    A primeira regra é simples: inundar. Em vez de uma grande rutura frontal, Miller privilegia uma sucessão rápida de decisões, decretos, anúncios e ameaças legais. A lógica é a da saturação. Tribunais, media, organizações civis e até a própria burocracia federal têm recursos limitados. Quando tudo acontece ao mesmo tempo, torna-se impossível reagir a tudo com igual intensidade. O excesso cria cansaço. O cansaço cria normalização.

    A segunda regra é o contorno. Sempre que possível, Miller evita os mecanismos clássicos de escrutínio. Reduz a produção de registos escritos, trabalha através de intermediários, recorre a equipas jurídicas externas e mantém distância deliberada de estruturas como o Office of Legal Counsel. Não se trata de ignorar a lei, mas de escolher o terreno onde a lei é mais frágil, mais ambígua ou mais lenta.

    Este método não procura vitórias jurídicas limpas. Procura tempo. Mesmo quando uma medida é bloqueada, o simples facto de ter sido implementada — ainda que temporariamente — produz efeitos reais: deportações realizadas, fundos congelados, programas interrompidos, comportamentos alterados. A reversão judicial chega sempre tarde demais para quem já sofreu as consequências.

    A terceira regra é a sobrevivência política. Miller aprendeu cedo que, num sistema personalista como o de Trump, a lealdade vale mais do que a coerência momentânea. Nunca confronta o presidente em público. Ajusta-se taticamente quando necessário. Sacrifica aliados quando estes deixam de ser úteis. O objetivo não é ter razão em cada batalha, mas permanecer no centro do poder.

    Fora do governo, o método mantém-se. A criação de uma máquina jurídica e mediática paralela permite-lhe pressionar a partir de fora, preparar o regresso e moldar o terreno político antes mesmo de voltar a ocupar cargos formais. A fronteira entre Estado, partido e sociedade civil torna-se deliberadamente difusa.

    Este é talvez o traço mais subestimado de Stephen Miller: a sua paciência estratégica. Enquanto outros capitalizam a notoriedade imediata, ele constrói infraestruturas. Enquanto o debate público se fixa em polémicas diárias, ele consolida precedentes. O poder, para Miller, não é um momento — é um processo.

    É por isso que a sua influência resiste às mudanças de ciclo, às derrotas temporárias e até ao desgaste do próprio Trump. O método não depende do carisma. Depende da repetição, da ambiguidade e da erosão lenta das barreiras institucionais.

    Quando se olha para o conjunto, torna-se claro que o maior perigo não reside numa medida específica, mas na rotina que o método instala. Uma rotina onde a exceção é constante, o escrutínio é tratado como entrave e a sobrevivência do poder se torna o critério supremo da ação política.

    Millerismo é mais coerente do que Trumpismo

    Comparar Stephen Miller a Donald Trump é inevitável, mas insuficiente. A relação entre ambos não é de mera influência ou dependência. É uma relação funcional, em que cada um fornece ao outro aquilo que lhe falta. Trump oferece legitimidade eleitoral, instinto político e capacidade de mobilização emocional. Miller oferece coerência, continuidade e execução.

    Trump é, por natureza, contraditório. Oscila entre posições, reage ao momento, negocia consigo próprio. Pode endurecer num dia e recuar no seguinte, tanto por cálculo como por cansaço. Miller, pelo contrário, é persistente. Mantém o rumo mesmo quando o ambiente político muda. Pressiona quando há recuos. Reaparece quando o tema parece esgotado. A sua visão do mundo não depende do ciclo noticioso.

    É por isso que, em vários momentos, o impulso mais radical não parte de Trump, mas de Miller. Na imigração, sobretudo, o padrão repete-se: Trump hesita perante custos económicos ou eleitorais; Miller insiste, enquadra, dramatiza e empurra a decisão para o limite. Onde Trump vê uma negociação, Miller vê uma oportunidade perdida.

    Esta diferença é fundamental para compreender o risco político que representa. Trump pode ser contido por tribunais, por eleições ou pelo seu próprio desinteresse. Miller não. Ele trabalha com horizontes longos. Aprende com derrotas. Ajusta o método sem abandonar o objetivo. O que hoje parece excessivo pode amanhã parecer apenas mais uma etapa.

    Neste sentido, faz sentido falar de millerismo como algo distinto do trumpismo. Um corpo de ideias mais consistente, menos dependente do carisma pessoal e mais adaptável às engrenagens institucionais. Um projeto que sobrevive a Trump porque nunca dependeu inteiramente dele.

    Isso não significa que Miller seja independente do presidente. Pelo contrário: a sua força reside precisamente na capacidade de se fundir com a vontade de Trump, de a antecipar e de a radicalizar sem nunca a desafiar frontalmente. A lealdade é absoluta, mas instrumental. Serve para preservar acesso, não para abdicar de ambição.

    O paradoxo é este: ao tornar o trumpismo mais coerente, Miller torna-o também mais perigoso. Retira-lhe o caráter errático que permitia resistências pontuais e substitui-o por uma lógica de acumulação gradual. O caos deixa de ser um acidente. Passa a ser uma ferramenta.

    Quando se olha para o conjunto, percebe-se que o verdadeiro legado de Trump pode não ser Trump. Pode ser a consolidação de um método político que outros, mais disciplinados e menos visíveis, poderão continuar a aplicar. Stephen Miller é, hoje, o exemplo mais acabado desse processo.

    Conclusão: o autoritarismo sem tanques

    O autoritarismo contemporâneo raramente chega de rompante. Não precisa de tanques nas ruas, de parlamentos dissolvidos ou de constituições rasgadas em direto. Chega de forma mais discreta, mais eficiente e, por isso mesmo, mais difícil de identificar enquanto ainda é reversível.

    Stephen Miller encarna esse modelo.

    Nada no seu percurso aponta para a rejeição explícita da democracia. Pelo contrário, ele opera dentro das suas formas, usando leis, cargos, procedimentos e linguagem institucional. O que muda não é o vocabulário, mas o conteúdo. Direitos tornam-se condicionais. Regras transformam-se em obstáculos. A exceção deixa de ser resposta a uma crise e passa a ser método de governação.

    O perigo não está numa medida isolada, por mais dura que seja. Está na acumulação. Na repetição. Na normalização progressiva do que antes seria impensável. Cada passo, tomado isoladamente, pode ser explicado, justificado ou relativizado. O conjunto, porém, revela uma transformação profunda da relação entre o Estado, o cidadão e a lei.

    Miller não precisa de destruir instituições. Basta-lhe habituá-las a funcionar de outra maneira. Um pouco menos de escrutínio aqui. Um pouco mais de força ali. Um desvio legal temporário que se prolonga. Um precedente criado “em nome da segurança”. Com o tempo, o sistema adapta-se. E quando se adapta, já não regressa facilmente ao ponto de partida.

    É por isso que o foco exclusivo em Donald Trump é insuficiente. Trump pode sair de cena, perder eleições ou simplesmente cansar-se. O método que figuras como Stephen Miller ajudaram a consolidar não desaparece com a mesma facilidade. Fica. Aprende. Espera.

    O autoritarismo moderno não se anuncia como tal. Apresenta-se como eficiência, ordem, realismo. Mantém as palavras da democracia enquanto esvazia o seu sentido. E é precisamente por isso que exige vigilância não apenas sobre os líderes visíveis, mas sobre os engenheiros silenciosos do poder.

    Stephen Miller não quer destruir a democracia americana. Quer torná-la irreconhecível — preservando-lhe o nome, mas alterando-lhe a substância. É nesse terreno, mais do que no espetáculo diário da política, que se decide o futuro.


    Referências

  • Irão: um regime que resiste, mas já não integra

    O Irão voltou às ruas. Mais uma vez, a faísca foi económica: inflação galopante, colapso do rial, salários incapazes de acompanhar o custo de vida. Mais uma vez, a resposta foi previsível: repressão, detenções em massa, mortos, apagões quase totais da Internet. E, como tantas vezes desde 1979, o que começou como protesto social rapidamente se transformou em contestação política frontal.

    Nada disto é novo. O que é novo — ou, pelo menos, cada vez mais evidente — é o esgotamento estrutural da relação entre o regime e a sociedade iraniana.

    Da crise económica à rejeição política

    A economia iraniana vive há anos sob pressão extrema, resultado de sanções internacionais, má gestão interna e de um modelo profundamente capturado por interesses político-religiosos e militares. A inflação deixou de ser um indicador macroeconómico para se tornar uma experiência quotidiana de empobrecimento acelerado. Quando o preço dos alimentos e dos medicamentos dispara, a política deixa de ser abstracta.

    Mas o padrão repete-se: a contestação económica não encontra canais institucionais de mediação. Não há mecanismos credíveis que permitam absorver o conflito social. E, quando isso acontece, a crítica deixa de ser dirigida às políticas e passa a ser dirigida ao próprio regime.

    Os slogans ouvidos nas ruas já não pedem reformas. Pedem o fim do sistema. Em alguns casos, rejeitam não apenas a teocracia, mas qualquer forma de autoritarismo — sinal de uma sociedade que perdeu a fé não apenas nos governantes, mas no modelo de poder.

    A repressão como método — e como corrosão

    A resposta do Estado iraniano continua a assentar num guião conhecido: força bruta, controlo da informação, isolamento do país do exterior. O corte da Internet não é um detalhe técnico; é um instrumento político central. Impede a coordenação dos protestos, dificulta a circulação de imagens e protege o regime do escrutínio internacional.

    Mas há aqui um paradoxo que se repete: cada vaga de repressão salva o regime no curto prazo e enfraquece-o no longo prazo. Ao esmagar protestos sucessivos, o poder não resolve o conflito — apenas o adia, acumulando ressentimento e deslegitimação.

    É por isso que o Irão vive num ciclo quase permanente de contestação. O regime sobrevive, mas fá-lo à custa de se tornar cada vez mais estranho à sociedade que governa.

    Uma clivagem geracional irreversível

    Talvez o factor mais decisivo seja geracional. A maioria dos jovens iranianos nasceu muito depois da Revolução de 1979. Não viveu a queda do xá, nem o momento fundacional da República Islâmica. Cresceu, isso sim, sob sanções, vigilância moral, restrições sociais e ausência de perspectivas económicas.

    Para esta geração, a teocracia já não é um projecto político — é um obstáculo. A religião, em si, não está necessariamente em causa; o que está em causa é a sua instrumentalização como sistema de poder fechado, incapaz de oferecer futuro, prosperidade ou liberdade mínima.

    Quando um regime deixa de conseguir integrar as novas gerações, deixa também de conseguir renovar a sua legitimidade.

    A dimensão feminista — e o desconforto no Ocidente

    Há ainda uma dimensão incontornável nestes protestos que o debate internacional tende a tratar com cautela excessiva: a centralidade das mulheres. Desde 2022, e de forma ainda mais clara agora, são elas que desafiam directamente o coração simbólico da teocracia — o controlo do corpo, da aparência, da vida privada. Não se trata apenas de direitos civis; trata-se de autonomia existencial.

    É por isso que alguns falam numa das mais significativas revoltas feministas contemporâneas. Não porque use a linguagem académica do feminismo ocidental, mas porque é vivida no terreno, sob risco real, contra um poder que se legitima precisamente em nome da “proteção” das mulheres. E é aqui que surge um desconforto visível em parte do feminismo ocidental: o caso iraniano obriga a confrontar a opressão quando ela não vem disfarçada de patriarcado liberal, mas de tradição, religião e soberania cultural.

    Não houve silêncio absoluto — houve solidariedade, protestos, palavras. Mas houve também hesitação, ambiguidade, dificuldade em integrar esta luta em quadros ideológicos habituais. Apoiar plenamente as mulheres iranianas implica rejeitar tanto o paternalismo externo como o relativismo cultural. Implica aceitar que a libertação não é um conceito ocidental exportável, mas também não pode ser negada em nome da autenticidade cultural. As mulheres iranianas não pedem para ser salvas; pedem para não serem silenciadas.

    Um regime que resiste, mas já não governa

    A República Islâmica do Irão não está à beira de cair. Controla os aparelhos de segurança, domina os mecanismos de repressão e não enfrenta uma oposição organizada capaz de capitalizar o descontentamento popular.

    Mas há algo que parece cada vez mais claro: o regime já não governa no sentido pleno do termo. Administra, reprime, sobrevive — mas não integra, não convence, não mobiliza.

    Cada protesto esmagado deixa menos espaço para a reconciliação entre Estado e sociedade. Cada apagão informativo revela medo, não força. Cada jovem que sai à rua sabendo o risco que corre é um sinal de que a obediência deixou de ser automática.

    O factor externo e o paradoxo da intervenção

    A este quadro junta-se ainda um factor externo potencialmente decisivo: a retórica de intervenção vinda de Washington. As ameaças do presidente Donald Trump, surgidas após a intervenção americana na Venezuela, não enfraquecem automaticamente o regime iraniano — podem, pelo contrário, reforçá-lo. A história mostra que a pressão militar ou a promessa de “salvação externa” tende a reactivar reflexos nacionalistas e a oferecer às teocracias um argumento poderoso: o da defesa da soberania contra o inimigo estrangeiro.

    Para um regime que já governa mais pelo medo do que pelo consentimento, essa narrativa é um recurso precioso. O paradoxo é claro: quanto mais o Irão é ameaçado de fora, mais fácil se torna para o poder justificar a repressão interna. Se a República Islâmica vier a mudar, dificilmente será por imposição externa; será porque, a prazo, já não consegue reconciliar repressão permanente com uma sociedade que deixou de aceitar o silêncio como destino.

  • Entre a soberania abstrata e a libertação ilusória

    O debate em torno da intervenção norte-americana na Venezuela cristalizou rapidamente em dois campos opostos, ambos convictos da sua superioridade moral e ambos, paradoxalmente, incompletos. De um lado, os que condenam a ação dos Estados Unidos em nome da soberania e do direito internacional, muitas vezes reproduzindo — conscientemente ou não — narrativas alinhadas com o regime venezuelano ou com a propaganda russa. Do outro, os que defendem a intervenção como imperativo moral, relativizando regras, processos e consequências em nome da libertação de um povo oprimido.

    Ambas as leituras contêm elementos de verdade. Ambas falham por ausência de contrapeso.

    A crítica à intervenção americana não é ilegítima. A ação foi unilateral, sem mandato internacional, contornando mecanismos institucionais internos nos próprios Estados Unidos e assumindo abertamente interesses económicos estratégicos. A normalização deste método enfraquece a ordem internacional baseada em regras e cria precedentes que outras potências — menos escrutinadas e menos constrangidas — podem explorar. Ignorar este risco é fechar os olhos ao mundo como ele é, não como gostaríamos que fosse.

    Mas esta crítica transforma-se em cinismo quando reduz a tragédia venezuelana a um detalhe secundário. Defender a soberania como escudo absoluto, abstraindo fome, repressão, fraude eleitoral e exílio em massa, é inverter o sentido do direito internacional. A soberania existe para proteger sociedades, não regimes. Quando se torna argumento para a inércia, deixa de ser princípio e passa a ser álibi.

    Do lado oposto, a defesa da intervenção como libertação moral incorre num erro simétrico. Reconhecer que a soberania não é absoluta não equivale a legitimar qualquer ação que a viole. A história recente mostra que a força externa pode derrubar líderes, mas raramente cria legitimidade política. No caso venezuelano, não há mudança de regime, não há alívio imediato da tragédia humanitária, não há abertura política visível. O aparelho repressivo mantém-se, agora sob nova tutela. A promessa de libertação não encontrou, até agora, confirmação nos factos.

    Além disso, minimizar o peso dos interesses económicos é um erro de escala. Eles não são acessórios; são estruturantes. Quando a extração de recursos e a governação prolongada são assumidas como horizonte, a intervenção deixa de ser exceção humanitária e passa a ser exercício de poder. A pureza das intenções nunca foi critério suficiente no direito internacional — e não o pode ser agora.

    O problema central deste debate não é escolher um lado, mas recusar a falsa alternativa que ele propõe. Não se trata de optar entre soberania abstrata e força libertadora. Trata-se de reconhecer que sem regras, a força corrói; sem política, a libertação é ilusória; sem contrapesos, a moral transforma-se em instrumento de poder.

    A equidistância ideológica não é neutralidade moral. É exigência analítica. Significa recusar tanto a complacência com regimes autoritários quanto a absolvição automática de intervenções unilaterais. Significa olhar para os efeitos no terreno, para o tempo longo e para os precedentes criados — não apenas para as intenções declaradas ou para os alinhamentos ideológicos.

    A Venezuela não precisa de ser instrumentalizada por nenhuma narrativa externa. Precisa de política, legitimidade e alívio humano real. Enquanto o debate continuar sequestrado por leituras sem contrapeso, continuará a falhar exatamente aquilo que diz defender.


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  • A ilusão da libertação e o regresso da força

    A promessa da libertação vs. a realidade no terreno

    A captura de Nicolás Maduro foi apresentada como um momento de rutura. Para muitos, dentro e fora da Venezuela, abriu-se a expectativa de que um ciclo autoritário chegara finalmente ao fim. As primeiras reações internacionais — sobretudo na Europa — refletiram essa cautelosa esperança: falou-se em oportunidade, em transição possível, em libertação adiada mas finalmente ao alcance.

    Mas os factos no terreno contam uma história menos otimista.

    Nos dias que se seguiram à saída de Maduro, não houve sinais claros de abertura política. Pelo contrário, foi decretado um estado de emergência, a presença das forças de segurança intensificou-se e multiplicaram-se relatos de detenções arbitrárias, vigilância sobre jornalistas e intimidação de cidadãos que celebraram publicamente a queda do antigo líder. O aparelho repressivo não foi desmontado; foi reconfigurado.

    Ao mesmo tempo, a crise social que há anos marca o quotidiano venezuelano manteve-se intacta. A maioria da população continua a ter dificuldade em garantir alimentação básica, o mercado de trabalho permanece profundamente informal e a degradação dos serviços públicos — eletricidade, água, transportes — não conheceu qualquer melhoria imediata. Para quem vive no país, a mudança no topo do poder não se traduziu numa mudança na vida.

    Este desfasamento entre discurso e realidade é crucial. A narrativa da “operação benigna” assenta na ideia de que remover um líder autoritário cria, quase automaticamente, espaço para a liberdade e para a reconstrução. Mas a experiência venezuelana sugere algo diferente: a operação alterou a hierarquia do poder, não a natureza do regime.

    É a partir daqui que a análise se torna inevitável. Porque, se a promessa de libertação não encontra confirmação nos factos mais imediatos, então a questão central deixa de ser quem caiu — e passa a ser o que realmente mudou.

    Quando a força substitui a política

    A tentação de ler a Venezuela como um caso excecional é grande. Um regime isolado, uma economia em colapso, uma crise humanitária prolongada — tudo parece justificar medidas fora do comum. Mas a história recente mostra que este tipo de intervenção segue um padrão conhecido, testado e repetidamente falhado.

    No Afeganistão, a intervenção liderada pelos Estados Unidos derrubou rapidamente o regime talibã após os ataques de 11 de setembro. Seguiram-se duas décadas de construção institucional apoiada por forças externas, investimento massivo e presença militar permanente. Ainda assim, quando essas forças se retiraram, o edifício político colapsou quase de imediato. O problema não foi a falta de recursos, mas a ausência de uma ordem política enraizada no consentimento interno.

    O Iraque oferece uma variação diferente do mesmo erro. Após a invasão de 2003, os Estados Unidos assumiram responsabilidades que iam muito além da segurança: eletricidade, água, emprego, administração e reconciliação política. A lógica era simples — e profundamente equivocada: a coerção, combinada com gestão tecnocrática, seria suficiente para produzir uma transição democrática rápida. O resultado foi previsível. Ao assumir a governação, a potência ocupante tornou-se o foco natural da resistência, independentemente das suas intenções declaradas.

    A Líbia mostrou um terceiro modo de falhar. A intervenção internacional removeu o ditador, mas não foi seguida por qualquer estrutura de governação funcional. O vazio de poder abriu caminho à fragmentação, ao domínio de milícias e a um conflito prolongado sobre soberania e recursos que ainda hoje não encontrou solução.

    O fio comum entre estes casos não é a má execução de boas ideias, mas uma ilusão recorrente: a crença de que a força externa pode substituir a política interna. Derrubar um regime é um ato militar; criar legitimidade é um processo social e histórico. Confundir um com o outro tem sido uma das constantes mais caras da política internacional das últimas décadas.

    É neste contexto que a Venezuela deve ser lida. Não como um desvio trágico, mas como mais um capítulo de uma lógica que privilegia a ação rápida e visível sobre a construção lenta e incerta da legitimidade. A questão, portanto, não é se a força pode alterar o equilíbrio de poder — isso é evidente. A questão é se pode criar uma ordem política estável. A experiência acumulada sugere que não.

    Quando a política falha, é o futuro que fica em suspenso.
    Por Alex dos Santos

    A Venezuela como novo manual (não como exceção)

    O erro mais comum na leitura da intervenção na Venezuela é tratá-la como um caso extremo, ditado por circunstâncias igualmente extremas. Essa leitura é confortável, mas enganadora. O que está em causa não é uma resposta improvisada a uma crise singular, mas a aplicação de um método que começa a repetir-se com variações mínimas.

    Na Venezuela, esse método tornou-se particularmente visível. A decisão foi tomada de forma unilateral, à margem de qualquer mandato internacional claro e contornando mecanismos de escrutínio interno. As instituições multilaterais surgem apenas como cenário secundário, não como espaço de decisão. A legalidade deixa de ser condição prévia e passa a ser um argumento instrumental, usado quando convém e ignorado quando atrapalha.

    Ao mesmo tempo, a linguagem adotada abandona qualquer ambiguidade. O controlo de recursos — em particular do petróleo — deixa de ser subtexto e passa a ser texto. A governação externa é assumida como possibilidade prolongada, não como exceção temporária. A soberania transforma-se numa variável negociável, dependente da cooperação com os interesses da potência interveniente.

    Este conjunto de elementos define algo novo. Não estamos perante uma intervenção justificada por um quadro normativo partilhado, nem por uma coligação alargada que dilua responsabilidades e imponha limites. Estamos perante um manual operacional: agir rápido, agir sozinho, garantir recursos estratégicos, estabilizar pela força e adiar indefinidamente a questão da legitimidade política.

    É por isso que a Venezuela não pode ser lida como um desvio. Ela cristaliza uma lógica que já estava em formação: a substituição das regras por precedentes, do multilateralismo pela demonstração de poder, da política pela gestão coerciva. O facto de esta lógica ser agora assumida de forma explícita — e não disfarçada por retórica humanitária — torna-a ainda mais relevante.

    Neste quadro, a pergunta deixa de ser se a intervenção foi bem-sucedida no curto prazo. A pergunta passa a ser outra: que tipo de ordem internacional se constrói quando a exceção se transforma em método. A resposta não está apenas na Venezuela, mas no precedente que ela estabelece — e no silêncio, ou aceitação tácita, de quem poderia contestá-lo.

    A Europa perante o espelho

    A reação europeia à intervenção na Venezuela foi marcada por prudência e ambiguidade. Em vez de uma condenação clara ou de uma avaliação baseada em princípios, surgiram declarações cautelosas sobre oportunidades, transições possíveis e a necessidade de acompanhar os desenvolvimentos no terreno. Essa linguagem não é acidental. Reflete uma dificuldade mais profunda da União Europeia em lidar com violações da ordem internacional quando estas partem de aliados estratégicos.

    A União Europeia tem sido firme — e corretamente — na condenação da invasão russa da Ucrânia. Invoca o direito internacional, a soberania dos Estados e a inadmissibilidade do uso da força para alterar fronteiras ou impor vontades políticas. Esse posicionamento foi acompanhado por sanções, apoio político e uma narrativa consistente sobre a defesa de regras comuns.

    O contraste com a Venezuela é evidente. Perante uma intervenção unilateral, sem mandato internacional e com intenções de governação prolongada assumidas, a resposta europeia foi hesitante. A linguagem jurídica deu lugar a fórmulas vagas, e a defesa de princípios universais cedeu espaço à conveniência diplomática. A regra manteve-se no discurso; a sua aplicação tornou-se seletiva.

    Este duplo critério tem custos. Quando a União Europeia aplica as regras de forma desigual, fragiliza a sua própria autoridade normativa. A crítica à violação da soberania perde força quando depende do autor da violação. E a ordem internacional baseada em regras transforma-se, aos olhos de muitos, num sistema de exceções toleradas.

    É aqui que emerge um dos dilemas centrais do projeto europeu. A União foi construída para conciliar interesses, gerir divergências e evitar conflitos internos. Mas essa vocação conciliadora torna-se um problema quando se estende à negociação implícita de princípios fundamentais. Conciliar no método não pode significar negociar as regras.

    A Venezuela coloca a Europa perante um espelho desconfortável. A questão já não é apenas o que os Estados Unidos fazem, mas o que a União Europeia está disposta a aceitar em silêncio. E esse silêncio, mais do que qualquer declaração, ajuda a definir o tipo de ator internacional que a Europa se tornou — e o tipo de ordem que está disposta a tolerar.

    O erro fatal: confundir intervenção com governação

    Intervir é um ato de força. Governar é um processo político. A confusão entre estas duas dimensões está no centro das falhas mais graves das intervenções externas das últimas décadas — e a Venezuela não parece escapar a esse padrão.

    O país parte de uma situação particularmente frágil. A infraestrutura encontra-se degradada, os serviços públicos funcionam de forma intermitente e a economia informal tornou-se o principal meio de sobrevivência para grande parte da população. Neste contexto, qualquer poder que assuma funções de governação herda automaticamente um conjunto de responsabilidades impossíveis de cumprir a curto prazo.

    A consequência é previsível. Cada apagão, cada escassez de alimentos, cada falha administrativa deixa de ser atribuída ao passado e passa a ser imputada a quem governa no presente. A distinção entre herança estrutural e gestão atual perde relevância quando a vida quotidiana continua marcada pela precariedade. O que começa como libertação rapidamente se transforma em ocupação aos olhos da população.

    Este mecanismo não depende de intenções. Mesmo uma intervenção bem financiada e tecnicamente competente enfrenta o mesmo problema de base: a ausência de legitimidade interna. Sem consentimento político, a governação externa cria resistência simplesmente por existir. Quanto mais funções assume, mais alvos gera; quanto mais tenta corrigir falhas sistémicas, mais se torna responsável por elas.

    Além disso, a governação prolongada acarreta custos estratégicos que vão muito além do caso venezuelano. Normaliza a tutela externa como solução aceitável, enfraquece a distinção entre ajuda e controlo e torna cada vez mais difícil defender princípios como soberania e autodeterminação noutros contextos. O precedente pesa mais do que a intenção.

    É por isso que a questão central não é apenas se a intervenção pode estabilizar a Venezuela no curto prazo. A questão é se pode fazê-lo sem se tornar prisioneira das mesmas dinâmicas que minaram experiências anteriores. A história recente sugere que, quando a força substitui a política, o fracasso não é uma possibilidade remota — é uma consequência provável.

    Imagem em domínio público — Retrato presidencial oficial de Donald J. Trump (2025), por Daniel Torok. Fonte: White House / Wikimedia Commons.

    O que realmente está em jogo

    A intervenção na Venezuela não é apenas um episódio latino-americano nem um caso isolado de política externa agressiva. O que está em jogo é algo mais profundo: a normalização de uma ordem internacional onde a força deixa de ser exceção e passa a ser método, e onde a soberania se torna condicional.

    Quando uma grande potência assume abertamente o direito de intervir, governar e explorar recursos de outro Estado sem mandato internacional, não está apenas a resolver um problema específico. Está a estabelecer um precedente. Esse precedente não se limita à Venezuela. Ele ecoa noutras regiões, noutras crises e noutras ambições.

    Num sistema assim, as regras deixam de ser universais. Passam a depender de quem age, de quem observa e de quem decide reagir — ou não. A distinção entre legalidade e conveniência dilui-se, e o direito internacional transforma-se num instrumento seletivo, invocado contra adversários e relativizado perante aliados.

    Este deslizamento tem consequências cumulativas. Enfraquece os mecanismos multilaterais, incentiva respostas simétricas por parte de outras potências e reduz o espaço para soluções negociadas. Quando a exceção se torna prática recorrente, o sistema deixa de oferecer previsibilidade — e a instabilidade torna-se estrutural.

    Para a Europa, este cenário é particularmente problemático. Sem autonomia estratégica suficiente para impor alternativas e sem coesão política para falar a uma só voz, a União vê-se empurrada para um papel reativo. Defende regras que já não consegue garantir e valores que aplica de forma desigual. O resultado não é apenas perda de influência, mas perda de credibilidade.

    No fundo, a Venezuela expõe uma verdade desconfortável: a ordem internacional não está a ser substituída por outra mais justa ou mais eficaz. Está a ser esvaziada. E num mundo onde as regras se tornam opcionais, a força não cria estabilidade — apenas redistribui a insegurança.

    Conclusão

    A questão colocada pela intervenção na Venezuela não é apenas se ela foi eficaz, nem sequer se era necessária. A questão mais profunda é que tipo de mundo se constrói quando a força substitui as regras, quando a governação externa se normaliza e quando a legitimidade passa a ser tratada como um detalhe técnico.

    A experiência recente mostra que derrubar regimes é mais fácil do que construir ordens políticas estáveis. Mostra também que a tutela prolongada não liberta sociedades, apenas transfere responsabilidades — e ressentimentos. O libertador transforma-se rapidamente no ocupante, não por intenção, mas por função.

    Ao agir de forma unilateral, contornando instituições nacionais e internacionais e assumindo abertamente interesses materiais como motor da intervenção, os Estados Unidos não apenas alteraram o destino imediato da Venezuela. Contribuíram para enfraquecer um sistema já frágil de regras comuns. E ao reagir com ambiguidade, a Europa confirmou a sua dificuldade em defender princípios quando estes se tornam incómodos.

    A Venezuela, assim, não é um desvio trágico nem um acidente histórico. É um sinal. Um sinal de uma ordem internacional em erosão, onde a exceção se transforma em método e a força ocupa o espaço deixado pela política.

    A história sugere que este caminho não conduz à estabilidade nem à segurança. Conduz, isso sim, a um mundo mais imprevisível, mais desigual e mais propenso ao conflito. Reconhecer isso não é um exercício de pessimismo — é uma condição mínima para voltar a pensar a política internacional com seriedade.

  • A Venezuela não é um desvio. É o novo manual.

    A captura de Nicolás Maduro por forças norte-americanas, em janeiro de 2026, foi apresentada como uma operação cirúrgica contra um regime autoritário. Mas lida à luz dos próprios documentos estratégicos dos Estados Unidos — e da reação internacional — torna-se evidente que não estamos perante um episódio isolado.

    Estamos perante a consolidação de um novo padrão de atuação das grandes potências: um manual onde capacidade, interesse e precedentes substituem soberania, regras e legitimidade internacional.


    O precedente explícito

    Segundo o New York Times, a intervenção na Venezuela foi justificada pela chamada Trump Corollary, inscrita na mais recente National Security Strategy, que afirma o direito dos Estados Unidos a “restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental”.

    “The precedent he has set, which is that larger powers move in on smaller powers and then command their resources, is something you could easily imagine Xi Jinping or Vladimir Putin exploiting in Taiwan or Ukraine.”

    — New York Times

    Este ponto é crucial: precedentes estratégicos não são morais — são imitáveis. Ao normalizar a lógica de que potências maiores podem intervir em Estados menores para controlar recursos e governos, Washington redefine as regras para todos.


    → New York Times — Global Implications of the Venezuela Intervention


    De Caracas a Copenhaga: o tabuleiro alarga-se

    No mesmo momento em que a Venezuela era apresentada como caso resolvido, a ameaça norte-americana de anexar a Gronelândia desencadeava uma crise diplomática com a Dinamarca — um aliado da NATO.

    A primeira-ministra dinamarquesa foi clara: um ataque dos EUA a um país da NATO significaria o colapso da aliança e da própria arquitetura de segurança europeia.

    O New York Times sublinha o ponto mais perturbador: se os Estados Unidos reclamam uma esfera exclusiva no Hemisfério Ocidental, não esclarecem por que razão China e Rússia não poderiam fazer o mesmo noutras regiões.


    → New York Times — Trump, Greenland and the NATO Crisis


    Cuba: pressão sistémica em vez de invasão

    O Washington Post acrescenta uma terceira peça ao tabuleiro. Com a queda de Maduro, os EUA avançam para uma estratégia de estrangulamento energético e político de Cuba, explorando a dependência histórica da ilha do petróleo venezuelano.

    Sem invasão direta, a lógica é clara: colapso económico, pressão social e eventual mudança de regime — não por via democrática, mas por exaustão estrutural.


    → Washington Post — Cuba Enters the Crosshairs


    Conclusão: o novo manual

    A Venezuela não é um desvio tático nem uma exceção circunstancial. É a aplicação prática de uma doutrina que abandona a linguagem das regras universais e assume, sem disfarce, a lógica das esferas de influência.

    Quando o poder deixa de fingir que obedece a normas, a soberania torna-se condicional. E quando os precedentes substituem o direito internacional, a pergunta deixa de ser quem tem razão e passa a ser quem tem capacidade.

    A Venezuela não é um desvio. É o novo manual.

  • Controlo, confiança e colaboração: três vias para o desktop moderno

    Durante anos, a discussão em torno dos sistemas operativos foi dominada por comparações técnicas: desempenho, estabilidade, compatibilidade, design. Mas há um plano mais profundo — e mais decisivo — onde estas escolhas se tornam verdadeiramente políticas e filosóficas: que relação estabelece o sistema com o utilizador e quem detém o poder último de decisão.

    A evolução recente do desktop moderno pode ser lida através de três vias distintas: controlo, confiança e colaboração. Não são apenas opções técnicas; são visões diferentes sobre autonomia, erro e responsabilidade.


    A via do controlo

    Na via do controlo, o sistema assume a responsabilidade quase total pelo bom funcionamento da experiência. As decisões estruturais são tomadas a montante, os caminhos possíveis são cuidadosamente delimitados e o utilizador é protegido de erros potencialmente graves.

    Esta abordagem oferece vantagens claras: estabilidade elevada, previsibilidade, integração profunda entre componentes e uma experiência geralmente polida. O custo é igualmente claro: liberdade estrutural reduzida. O utilizador pode escolher dentro de um perímetro bem definido, mas raramente pode redefinir esse perímetro. A Apple é o exemplo paradigmático.

    Aqui, a integração não é neutra — é um mecanismo de governação. Funciona porque limita, e limita porque desconfia da falibilidade humana.


    A via da confiança

    Na via da confiança, o sistema parte de um pressuposto oposto: o utilizador é competente ou, pelo menos, responsável pelas consequências das suas escolhas. O sistema oferece ferramentas, não proteções excessivas. A liberdade é ampla, mas o risco também.

    Historicamente, esta foi a cultura dominante no mundo Unix e Linux: sistemas transparentes, configuráveis, moldáveis. O utilizador ganha soberania total, mas também assume o peso da manutenção, da coerência e da recuperação quando algo corre mal.

    Esta abordagem valoriza a autonomia e o conhecimento, mas pode tornar-se hostil para quem não quer — ou não pode — viver permanentemente em modo administrativo. A confiança absoluta, quando não é acompanhada de suporte, transforma-se facilmente em abandono.

    A System76 é um dos melhores exemplos desta via, porque faz algo raríssimo:

    • vende hardware para Linux
    • desenvolve firmware aberto (coreboot)
    • cria o seu próprio desktop (COSMIC)

    Mas não fecha portas.

    A estabilidade não depende de obediência, mas sim de engenharia sólida.


    Uma possível terceira via: colaboração

    Entre o controlo absoluto e a confiança total começa a desenhar-se uma terceira possibilidade: a colaboração. Um modelo em que o sistema não decide tudo pelo utilizador, mas também não o deixa sozinho.

    Na via colaborativa, a liberdade mantém-se, mas é acompanhada de suporte estruturado: validações claras, zonas seguras para experimentar, recuperação simples quando algo corre mal. O erro deixa de ser uma falha moral ou técnica e passa a ser parte normal do uso.

    Ainda não existe um desktop que encarne plenamente esta filosofia, mas surgem sinais claros dessa transição: sistemas com rollback integrado, modelos declarativos, ambientes que preferem orientar em vez de proibir. A colaboração não substitui a autonomia; torna-a sustentável.


    Mais do que técnica, uma escolha política

    Estas três vias não competem apenas no plano da eficiência. Competem no plano da visão sobre o utilizador.

    • O controlo protege, mas infantiliza.
    • A confiança emancipa, mas pode isolar.
    • A colaboração procura equilibrar liberdade e cuidado.

    À medida que os sistemas se tornam mais integrados, mais imutáveis e mais resistentes ao erro, a questão deixa de ser se funcionam. Passa a ser como funcionam e para quem.

    Talvez o futuro do desktop não esteja em escolher um vencedor definitivo, mas em reconhecer que a tecnologia também expressa modelos de poder. E que perguntar quem decide os limites da nossa liberdade digital continua a ser uma questão essencial.


    Este texto não é um manifesto contra empresas ou tecnologias específicas. É uma reflexão sobre diferentes formas de organizar a relação entre sistemas e utilizadores. Num tempo em que a estabilidade é frequentemente comprada à custa da autonomia, vale a pena perguntar: quem decide até onde podemos ir?